terça-feira, 19 de agosto de 2014

Vício original

Elzi Nascimento e Elzita Melo Quinta

A revelação espiritual compõe os alicerces do edifício que é a doutrina espírita.  Não crer em todos os espíritos e verificar se os mesmos são de Deus, máxima do apóstolo João Evangelista, também encontra ressonância no alerta de Allan Kardec no capítulo 1º ao 5º livro da codificação. A Gênese, sobre o caráter da revelação espírita: “O caráter essencial da revelação divina é o da eterna verdade. Toda revelação eivada de erros ou sujeita a modificação, não pode emanar de Deus.”

As duas primeiras revelações, que vieram através dos judeus Moisés e Jesus, cotadas como “farol da humanidade”, são tratadas com a lógica e o bom senso de Kardec  nessa 5ª obra que compõe o pentateuco da 3ª revelação: a doutrina espírita. Em Gênese: cristo e Moisés são vistos como dois grandes reveladores das diretrizes que fundamentam a transcendência e a espiritualidade que norteiam o ser humano em sua rota evolutiva.

Moisés, como profeta, revelou aos homens, a existência de um Deus único; promulgou a lei do sinai e lançou  as bases da verdadeira fé.

O cristo, dizendo: “não vim destruir a lei, mas dar-lhe cumprimento”, tomou da antiga lei o que é eterno e divino e rejeitou o que era de concepção humana.  Acrescentou  a revelação da vida futura a que Moisés não se referiu e das penas e recompensas que o aguardam, depois da morte.

Fala de um Deus de amor, justo, bom, misericordioso, que perdoa o arrependido e que “dá a cada um segundo suas obras.” Afirma que nossa verdadeira pátria não é neste mundo, mas no reino dos céus, onde os humildes de coração serão elevados, e os orgulhosos serão humilhados. Informa  também “muitas das coisas que vos digo ainda não as compreendeis e muitas outras teria a dizer. Por isso vos falo em parábolas. Mais tarde enviar-vos-ei o consolador, o espírito de verdade que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará”. ( João,   cap. XIV , XVI e Mt. Cap. XVII).

O espiritismo partiu das próprias palavras do Cristo como este partiu das de Moisés e é consequência direta da sua doutrina. Revela a existência do mundo invisível que nos rodeia e povoa o espaço. 

Define os laços que unem a alma ao corpo e levanta o véu que ocultava aos homens os mistérios do nascimento e da morte.

Pelo espiritismo o homem sabe de onde vem, para onde vai, por que está na Terra, por que sofre temporariamente e vê por toda parte a justiça de Deus.

Sabe que todas as almas têm o mesmo ponto de origem, são criadas iguais, com idêntica aptidão para progredir em virtude de seu livre arbítrio. São da mesma essência, não havendo entre elas diferença senão quanto ao progresso realizado.

Toda criação deriva da grande lei de unidade que rege o universo e todos os seres gravitam para um fim comum que é a perfeição, visto serem todos filhos de suas próprias obras.

Pelas relações que hoje pode estabelecer com aqueles que deixaram a Terra, possui o homem não só a prova material da existência e da individualidade da alma, como também compreende a solidariedade que liga os vivos aos mortos, deste mundo e os deste mundo aos dos outros planetas.

Conhece a situação daqueles que partiram para o mundo dos espíritos, acompanha-os em suas migrações, aprecia-lhes  as alegrias e as penas; sabe a razão porque são felizes ou infelizes e a sorte que lhes está reservada, conforme o bem ou o mal que fizerem.

Quanto à punição, o homem sofre enquanto persistir no erro. Todos podem,  pelo livre arbítrio , prolongar ou abreviar seus sofrimentos, como o doente sofre pelos seus excessos , enquanto não lhes põe termo.

A pluralidade das existências evidência a justiça e o amor de Deus.

Sem a preexistência da alma a doutrina do pecado original seria inconciliável com a justiça de Deus, que tornaria todos os homens responsáveis pela falta de um só e ainda um contra senso  que bate de encontro com o livre arbítrio que rege as escolhas e atitudes do ser na fieira evolutiva.

Não há espaço para um pecado ou tropeço original. Mas o desdobramento dos frutos das ações indevidas que colocam na rota do reajuste o intenso trabalho de refazimento do destino que se corrompeu com o cultivo das falsas ideias e opções, que por se repetirem nas experiências das vidas sucessivas, poderemos chamar de vício original.

(Elzi Nascimento, psicóloga clínica e escritora / Elzita Melo Quinta  -  pedagoga – especialista em Educação e escritora. São responsáveis pelo Blog Espírita: luzesdoconsolador.com. Elas escrevem  no DM aos domingos - E-mail: iopta@iopta.com.br)

Publicado no portal Diário da Manhã em 16 de agosto de 2014.

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