quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O povo o chamava de "Médico dos Pobres"

Jávier Godinho

A história real de Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti começa no mundo espiritual, quando o anjo Ismael, que trabalha diretamente com Jesus e cuida do Brasil, o convocou para importante missão na Terra:

“Descerás às lutas terrestres com o objetivo de concentrar as nossas energias no País do Cruzeiro, dirigindo-as para o alvo sagrado dos nossos esforços. Arregimentarás todos os elementos dispersos, com a dedicação do teu espírito, a fim de que possamos criar o nosso núcleo de atividades espirituais, dentro dos elevados propósitos de reforma e regeneração. (...) Se a luta vai ser grande, considera que não será menor a compensação do senhor, que é o caminho, a verdade e a vida”.

Este relato consta do livro Brasil Coração do Mundo e Pátria do Evangelho, de Humberto de Campos e Francisco Cândido Xavier. Agosto é seu mês porque ele nasceu em 29/8/1931, no povoado de Riacho do Sangue (Ceará), deixando este mundo aos 69 anos, em 11/4/1900, no Rio de Janeiro, onde, com poucos recursos, inusitado esforço e raro talento, se formou em medicina, que exerceu com extraordinário espírito humanitário, sem cobrar dos carentes e se destacou como cirurgião e membro da Academia Imperial de Medicina.

O povo, já então, carinhosamente, o chamava de “Médico dos Pobres”.

“Eu era espírita e não sabia...”

Honrado e determinado, consagrou-se na vida pública durante três décadas. O Espiritismo começava no Brasil, com muita divisão entre seus pioneiros. Joaquim Carlos Travassos, autor da primeira tradução de O Livro dos Espíritos, lhe ofereceu um exemplar, que ele leu rapidamente e comentou: “Eu era espírita e não sabia...” Encantado, empenhou-se na sua divulgação e participou da fundação da Federação Espírita Brasileira (FEB), sem que lhe fosse permitido assinar a ata respectiva sob a alegação de que era político e destemido abolicionista. Ao invés de desanimar, ele multiplicou seus esforços pela unificação dos espíritas e foi convidado para presidir a FEB. Bezerra vacilava, quando recebeu de santo Agostinho, através do médium Frederico Júnior, irresistível apelo:

“Aceita o convite. É um chamado. Já te dissemos mais de uma vez que a união dos espíritas e a sua orientação te foram confiadas. Não duvides, nem te preocupes com as dificuldades. Faze o trabalho do homem, sem cuja boa-vontade nada podemos. Cumpre o teu dever e cumpriremos o nosso.”

Eleito presidente, se defrontou com outro grande desafio: o Código Penal proibia a prática espírita e ele lutou até a revogação dessa violência legal contra a liberdade religiosa. Tornou-se, então, também conhecido como “Kardec Brasileiro.”

Devoto de Maria Santíssima, relatam seus biógrafos que, ao despertar da morte no Mundo Maior, foi recebido pelo espírito Celina, enviado pela mãe santíssima. Com a proteção de Nossa Senhora, mesmo havendo superado a necessidade de reencarnar na Terra, até hoje continua trabalhando em nosso plano. Organizou legiões de equipes socorristas, que aliviam e curam doentes e consolam os aflitos, sobretudo no Nordeste brasileiro.

Sua história em documento oficial 

Dona Sandra Carvalho, figura das mais conceituadas nos meios espíritas goianos, que se notabilizou por suas obras sociais quando foi primeira dama do Estado, possui um raro e extraordinário documento oficial sobre o político Adolfo Bezerra de Menezes. Trata-se de um livro que conta sua atuação em três mandatos (1867-1870, 1878-1881 e 1882-1885) de deputado pela Província do Rio de Janeiro, integrante da coleção Perfis Parlamentares 33, publicada pela Câmara dos Deputados, em Brasília, 1986, com apresentação do presidente da Casa, Ulysses Guimarães, e introdução do deputado Freiras Nobre.

Nele fica-se sabendo, por exemplo, que teve como companheiros legislativos Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Saldanha Marinho, Bittencourt Sampaio,
Afonso Celso, José Bonifácio, o Moço; Joaquim Manoel de Macedo e outros parlamentares que a História do Brasil registra como exemplos de trabalho, civismo, honradez e inteligência.

O livro registra que “sua atuação parlamentar foi marcada pelos princípios cristãos e humanitários, que fundamentaram sua convicção reencarnacionista e a ascensão à presidência da Federação Espírita Brasileira.”

Bezerra de Menezes era “grave na crítica, severo na condenação ao erro e ao esbanjamento de dinheiro público, exigente com os poderosos e condescendente com os simples”.

“A repercussão da sua atividade na vida pública e, depois, especialmente dos seus artigos em O Paíz, que era o jornal de maior circulação na época, e sua ação parlamentar e evangelizadora tão intensa, fizeram multiplicar os centros, os ambulatórios, os hospitais, as creches, os asilos, os dispensários e os albergues noturnos, todos gratuitos”.

Suas ideias estavam avançadas mais de século. “Pregou o municipalismo e reclamou reformas sociais. Lutou pela abolição da escravatura, reclamou em favor dos consumidores, denunciou os perigos da poluição, tentou, através de projeto de lei, regulamentar o trabalho doméstico, visando conceder a essa categoria o aviso prévio de 30 dias, acompanhando Rui Barbosa, seu ilustre companheiro de legislatura.”

Publicado no portal Diário da Manhã em 19 de agosto de 2014.

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