By: Leonardo Vinicius Jorge
Às vezes, quando vemos uma luz diferente cruzar o céu, rapidamente nos empolgamos com a possibilidade de ser um OVNI – se não um disco voador, de fato, ao menos a passagem de um meteoro. Na maioria das vezes, porém, a frustração vem em seguida, quando percebemos que se trata apenas de um avião ou um balão meteorológico. É justamente essa a sensação de se assistir a “Área Q”, uma coprodução Brasil/EUA que supostamente seria uma ficção científica sobre abduções extraterrestres no interior do Ceará.
Dirigido por Gerson Sanginitto (“Cadáveres 2”), em seu primeiro trabalho no país, já que vive em Los Angeles, “Área Q” traz a história de Thomas Mathews (Isaiah Washington, da série “Grey’s Anatomy”), um conceituado jornalista americano que tem sua vida pessoal e profissional abalada após o misterioso desaparecimento de seu filho. Cheio de dívidas e próximo de perder a casa, ele aceita fazer uma matéria no Brasil sobre as constantes abduções, possivelmente alienígenas, relatadas por moradores das cidades de Quixadá e Quixeramobim, na região que dá nome título. Durante suas investigações, o cético jornalista terá suas crenças abaladas e irá descobrir um segredo que envolve até o destino de seu filho.
Roteirizado por Júlia Câmara, a partir do argumento de Sanginitto e do colega Halder Gomes (codiretor de “As Mães de Chico Xavier”), o filme tem uma premissa interessante, apontando novos rumos do cinema nacional. Ao arriscar-se num gênero pouco visitado no país, “Área Q” poderia conquistar certa relevância em nossa cinematografia, aproveitando técnicas e financiamento hollywoodianos – o diretor estudou cinema nos EUA. Porém, o filme boicota a si próprio com uma qualidade cinematográfica questionável, em estrutura narrativa e enquadramentos, e por substituir, ao longo do desenvolvimento, o conceito extraterrestre por um tom religioso.
Isaiah Washington segura a atenção como protagonista e é bem assessorado por Ricardo Conti (da série da Globo “Separação?!”), que faz o bem-humorado guia turístico Eliosvaldo. Murilo Rosa (“Aparecida – O Milagre”) também funciona, até porque ele precisa fazer, de certa forma, três personagens diferentes. Apenas Tânia Khalill destoa quando seu papel cresce na trama.
Mas “Área Q” peca mais por uma linguagem quadrada e sem muita ousadia. As constantes traduções das conversas do jornalista com seus entrevistados, por exemplo, ficam redundantes para o espectador. A narração em off mostra-se muitas vezes desnecessária e, curiosamente, ela surge pela primeira vez vários minutos após o início do filme, pondo em xeque sua montagem inicial.
O grande problema do filme, no entanto, é conceitual. Ainda que seja de forma discreta, e que seus produtores e elenco neguem, “Área Q” é mais uma produção com visível caráter espírita, somando-se a outros títulos do cinema nacional – e a presença da produtora Estação Luz Filmes, responsável por obras como “Bezerra de Menezes” (2007) e “As Mães de Chico Xavier” só confirma isso.
Até aí, nada demais. Pela ótica comercial, os longas-metragens do gênero têm realizado boa carreira nas bilheterias nacionais. Na verdade, os produtos religiosos em geral costumam render bons lucros – as vendas dos livros e CDs do Padre Marcelo causam inveja em escritores e músicos consagrados. Mas, diferente das outras produções que abordam o assunto, “Área Q” tenta ir mais a fundo e levanta, inclusive, questões políticas, como a causa ambiental (numa cena com vergonhosa direção de arte e interpretação).
E, ao dispor-se a discutir politicamente, o filme deixa seu protagonista nu. Ao “descobrir a verdade”, ele não realiza nada prático, exceto dizer que conhece a verdade. É tão profundo e sábio quanto o ensinamento do ET Bilu: “busquem conhecimento”.
Fonte: Pipoca Moderna

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