terça-feira, 10 de agosto de 2010

Cinema mediúnico

Isaac Ribeiro - enviado a Gramado-RS

O 38° Festival de Cinema de Gramado forneceu mais um título para reforçar a atual corrente espírita que toma, de leve, o cinema brasileiro. O documentário ficcional “O último romance de Balzac”, do cineasta Geraldo Sarno, estreou na terceira noite do evento, no último domingo. O longa-metragem retrata o trabalho de pesquisa desenvolvido em torno de um livro atribuído ao escritor francês Honoré de Balzac, psicografado pelo médium Waldo Vieira, amigo e colaborador de Chico Xavier, em 1965.

Anos mais tarde, o texto supostamente ditado pelo espírito de Balzac chega às mãos do psicólogo Osmar Ramos Filho, que, impressionado com o estilo e códigos ali transcritos, dedica dez anos de estudos na tentativa de atestar sua veracidade.

O filme alterna relatos de Waldo Vieira e de Osmar Ramos com trechos de um filme mudo, e em preto e branco, cujo roteiro é o próprio enredo do livro psicografado — inicialmente denominado de “Cristo Espera por Ti”. No elenco, o cantor e compositor Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantado, interpreta o personagem principal da trama, o angustiado e suicida Rafael de Valentin.

Na parte documental, chama atenção a busca de Osmar Ramos Filho em atestar a proximidade do que foi psicografado com aspectos relevantes da obra de Balzac, afim de lhe garantir, se não a autenticidade, pelo menos a proximidade com o estilo do escritor francês. Alguns detalhes deixam o psicólogo atônito. Intrigado, e agnóstico que é, passa a procurar o que há de verdadeiro naquilo tudo, e passa ao espectador sua empolgação com o que vai descobrindo.

Balzac costumava inserir em seus textos imagens inspiradas em quadros de pintores famosos, verdadeiros relatos pictóricos. Quando Osmar identifica semelhanças entre o processo criativo do escritor francês no relato de uma cena campesina de um quadro do pintor holandês Paul Porter, é que a pesquisa passa a tomar corpo e rumo.

“O último romance de Balzac” será distribuído pela produtora Ciclorama e deve chegar aos cinemas brasileiros no primeiro semestre do próximo ano, após fazer carreira no circuito nacional de festivais. Primeiro, a produção busca identificar no circuito comercial o público-alvo para o estilo do filme, entre admiradores de Honoré de Balzac e adeptos e simpatizantes do espiritismo.

Debate, farpas e confetes

Como acontece todos os dias no Festival de Cinema de Gramado, é realizado um debate na manhã seguinte à exibição de cada filme, reunindo imprensa, críticos, diretores, atores e integrantes das equipes técnicas de cada produção. Durante o bate-papo sobre “O último romance de Balzac”, o diretor Geraldo Sarno — autor, dentre tantos outros filmes, do clássico do cinema documental “Viramundo”, de 1965 — revelou ser o longa um projeto antigo, de mais de 15 anos, que enfrentou dificuldades para conseguir apoio e verba para ser rodado. “Fiquei muito curioso com quando soube que havia um livro de Balzac psicografado pelo Waldo. Li o que ele tinha escrito, fiz o projeto do filme, coloquei em vários editais, mas ninguém demonstrou interesse”, disse.

Foi quando recebeu um prêmio, em dinheiro, da Petrobras que resolveu tocar o projeto adiante, realizando um documentário. No projeto original estavam programadas idas a Paris para buscas de material de arquivo, relatos, mas a verba baixa fez com que a viagem fosse cancelada. Surgiu então a proposta de mesclar o documentário com um pasticho de cinema mudo. “Considero o filme um documentário carregado no bojo da ficção. Mas há um tema predominante: como uma obra psicografada pode revelar a obra de um grande escritor como Balzac. Já o tema da ficção é o próprio tema de Balzac, da criação artística; ou seja, a arte mata o artista”, analisou o diretor.
Geraldo também fez questão de ressaltar que, apesar de tratar de espiritismo, o filme não tem uma visão religiosa, doutrinária. “Não sou espírita; essa é a visão do Waldo. Eu considero o processo de criação. Mas por outro lado, alguns artistas dizem ser possuídos no momento da criação.”

Ao rebater críticas feitas por um jornalista, que se dizia decepcionado com o filme, apontando erros e classificando-o como um típico caso onde o artista mata a arte, contrapondo-se ao argumento do diretor, Geraldo disse estar contente com o sentimento de descontentamento da crítica feita no debate. “Hoje faço um cinema que vai na contra-corrente. Espero não ser aceito. Eu busco, na medida de minhas possibilidades e com muita exigência pessoal, a ruptura com o cinema dominante que está se fazendo hoje.”

Sobre a escolha de Lirinha para atuar no papel do mórbido Rafael de Valentin, Geraldo Sarno disse sempre ter sido fã do trabalho de seu trabalho musical à frente do Cordel do Fogo Encantado. E que escolheu por ver nele a figura mais próxima do Rafael idealizado, e não o artista loiro e de grandes madeixas descrito no texto psicografado por Waldo. “Além do mais, ele tem o sertão dentro de si.” Já Lirinha, apresentado na noite de exibição do filme apenas como José Paes de Lira, confessou não gostar muito de fazer cinema, apesar de já contabilizar algumas pontas e aparições. “Desculpe a todos, mas acho o processo muito chato!” Descontraído e tirando sorrisos da audiência, disse que na música a coisa é muito mais “pomba-gira”. Mas disse, no entanto, ter adorado a experiência de trabalhar com Geraldo Sarno, que tanto retratou a peleja dos nordestinos em seus filmes. Afinal, os dois trazem o sertão dentro deles. Ainda bem.

Notícia publicada no site Tribuna do Norte, em 10/08/10

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